Blog Manguetronic


RON ASHETON FOREVER!!

 



Escrito por manguetronic às 23h58
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HOLOCAUSTO EM GAZA



Escrito por manguetronic às 19h47
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Assim caminha a humanidade (2008 remix)



Escrito por manguetronic às 14h14
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A partir de 2 de janeiro, mudo de emprego: deixo a redação do Deprê e assumo a secretaria de Cultura de Hellcife. Os posts, obviamente, ficarão mais escassos. Ainda assim, espero merecer uma visita ocasional de vocês...ia desejar feliz natal, mas sempre achei essa festa idiota, mero consumismo desembestado...então segue um singelo "aquele abraço".



Escrito por manguetronic às 14h11
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A BATALHA DA VILA BELMIRO...



Escrito por manguetronic às 20h41
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Escrito por manguetronic às 19h27
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Mitch Mitchell...



Escrito por manguetronic às 14h58
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TÃO PERTO, TÃO LONGE

Tão perto. Tão longe. Brasil e África possuem tanto em comum e, às vezes, se
desconhecem como dois estranhos. Ainda mais na literatura, esse universo
onde, apesar da ascensão do discurso multicultural, as línguas da Europa
ocidental ainda dominam o cânone universal e o mais rasteiro - porém
infinitamente mais lucrativo - segmento dos best-sellers.

A África e sua literatura são os temas dessa entrevista com Patrick Chabal, do King's College de Londres, presidente da AEGIS
(Grupo África-Europa de Estudos Interdisciplinares em Ciências Humanas e
Sociais), realizada na última Fliporto. 

Quais aspectos culturais da África portuguesa merecem ser melhor conhecidos
pelos brasileiros?
Nós devemos tentar entender dois importantes aspectos dessa literarura. Um é
que cada autor está ligado à sua história, cultura, geografia e linguagem.
Isso tem trazido diferentes caminhos de expressar a transição para a
independência e o desenvolvimento da literatura nacional. Ao mesmo momento, é
óbvio que eles compartilham muito. Acima da língua portuguesa e da influência
do português e do jeito brasileiro de escrever, está, o que talvez seja o
mais importante, a história de uma violenta independência e de uma violenta
pós-indepedência.

Quais os nomes da literatura lusófana de matriz africana que ainda não
ganharam o devido reconhecimento?
Em literatura, é sempre difícil ter uma hierarquia. Os escritores que estão
vindo para a Fliporto são todos interessantes, mas em aspectos diferentes. Se
outros tivessem vindo, eles iriam ter trazido suas próprias vozes para o
festival. No entanto, alguém poderia argumentar que ‘ser reconhecido” e “ser
bom” não são necessariamente a mesma coisa. Nem também ser autor de best-
seller. Somente o tempo vai dizer quem são os mais originais e influentes
escritores. Isso vai incluir muitos dos que estão na Fliporto.

Os conflitos e as guerras têm sido uma temática dominante da literatura
africana contemporânea. Essa vertente não acaba por sufocar outras narrativas
importantes?
Isso não é inteiramente verdade. Embora muito do que tem sido escrito seja
sobre guerra, conflito e violência, há muito mais. Poesia, por exemplo,
sempre toca outros temas: identidade, emoção, percepções, etc. Além do mais,
há uma infinidade de variedade de caminhos pelos quais cada um pode lidar com
o conflito e a violência indo do estilo documentário de escrita à ironia. Eu
diria que narrativas “importantes” nunca se perdem. Elas aparecem em
diferentes lugares e de diferentes caminhos.

Na África, a tradição oral sempre foi muito forte. Essa característica
continua presente na produção literária contemporânea?
Sim, mas nem sempre de maneira óbvia. Mesmo quando escritores são
muito “literatos” nas suas escritas, eles refletem a importância da tradição
oral. Novamente, isso nem semore emerge  no que é usualmente considerado o
principal caminho da oralidade, que é o diálogo e a linguagem local ou
expressões locais. A estrutura da escrita, o ritmo da prosa, o comportamento
dos personagens podem todos exibir o que eu poderia chamar de qualidades
orais. Enquanto as culturas locais forem predominantemente orais, a
literatura também será permeada pela oralidade.

Desde o início da modernidade, a África está mergulhada em conflitos e
problemas sociais gravíssimos. Há saída? De que forma a literatura pode
contribuir para o futuro do continente?
Sim, mas não mais ou menos do que a literatura pode contribuir para o
desenvolvimento da sociedade em qualquer lugar do mundo. Literatura deve ser
mais “importante” quando há conflito, repressão e violência porque ela
possibilita um dos poucos caminhos de expressão solitária. Mas isso não
significa que a literatura será influente. As sociedades evoluem e mudam de
acordo com uma multiplicidade de fatores, a maioria deles econômicos, sociais
e políticos - não literários.

 



Escrito por manguetronic às 22h57
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SÃO PAULO: A VANGUARDA DO ATRASO...

 



Escrito por manguetronic às 22h35
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LA ISLA FASCINANTE

(Eduardo Homem, de Cuba. Email/crônica final)

Estou aqui no aeroporto esperando o v"oo pro M'exico, com um olho nas olimp'iadas e outro voltado pr'a dentro, cascavilhando na mem'oria o que de mais interessante aconteceu nesses 'ultimos dias de Havana/Cuba, a'i lembrei que ontem, voltando de Matanzas tarde da noite, depois do batuque na cerim"onia de Yemanja em um terreiro de Santeria, aproveitando o sil"encio sonolento na guagua, pensei que devia haver, se 'e que n'ao h'a, um 'indice da alegria e contenteza de um povo, assim como criaram o do desenvolvimento humano, e que se houvesse, o do povo cubano seria dos mais altos, sen~ao o mais de todos. Em 47 dias de Ilha foram rar'issimos os momentos em que presenciei algum mau humor, nunca um choro, reclamacoes h'a, claro, mas sem o ranco do pessimismo, no m'aximo um certo conformismo com o jeito de ser da gente e com a cultura do lugar, onde o tempo passa sem sofreguid'ao, sem pressa.

 

Eu saio convicto de que as pessoas s'ao contentes e nem arrisco relacionar isso com o regime cinquent'ao, porque Juan Bosh j'a falava um pouco assim em um livro publicado em 1955, " Cuba, la Isla Fascinante". Por certo que tem a ver com a satisfacao das necessidades ditas b'asicas, com fatos como o propagandeado em um cartaz de rua no caminho do aeroporto: "Dez millones de ninos mueren cada ano de enfermedades prevenibles. Ninguno es cubano". Deve ter a ver tamb'em com as praias maravilhosas onde cubanos e cubanas se esbaldam - Varadero no s'abado era, literalmente, um mar de gente em quilometros de praia, sem restricao alguma aa presenca dos nativos em meio aos turistas; com a ausencia do tema violencia no dia a dia das pessoas e na midia, o que me permite trocar 5 mil euros e sair andando pela rua sem nem aventar a possibilidade de um assalto; com a paisagem das cidades livre do lixo publicit'ario, as ruas sem farmacias uma em cima da outra explorando a doenca e a hipocondria; sem bancos e seus juros escorchantes; sem a enxurrada de oferta de coisas perec'iveis e desnecessarias, sem edif'icios cada vez mais altos e repetitivos na sua feiura horrorosa. At'e mesmo sem pol'iticos e a pol'itica onde a mentira 'e a regra e a verdade a excecao que a confirma.

 

Em Cuba n'ao tem pol'itica como a que sofremos nosotros, nem pol'iticos profissionais, os delegados eleitos para a assembl'eia nacional re'unem-se em comiss'oes de trabalho periodicamente e no plen'ario 3 ou 4 vezes por ano para decidir alguma coisa, ou aprovar alguma coisa que j'a foi decidida. E ganahm a vida nos seus afazeres normais, sem verba de gabinete, carro oficial, assessores fantasmas.  Eu n'ao vou correr o risco de dizer que isso 'e 'otimo pro povo cubano, mas pr'a mim, na minha atual irritacao e repulsa ao que vivemos por a'i, parece bem bonzinho.  Agora, que ningu'em que conheci reclamou com veemencia, tamb'em 'e verdade, embora faltem canais de express'ao, sobretudo da juventude, mas isso a galera tem que construir, como n'os achamos que fazemos. O Leonardo Padurra, em um conto de final do mil"enio, passado no bairro chino de Havana, dizia, mais ou menos, que as pessoas se conformam irritadas e quando reclamam o fazem ao l'eo, porque n'ao sabem mais a quem, ou contra o que reclamar. Pode ser, um conformismo conformado por um cotidiano onde o b'asico est'a garantido por um estado paternalista e autorit'ario.

 

Deixando a filosofia de botequim de lado, Habana Vieja vive um ritmo gostoso de restauro, tanto dos monumentos como das casas onde vivem as pessoas, e mesmo quando as pessoas vivem em algum monumento, como na Plaza Vieja, seguem vivendo depois da restauracao. Ali'as, nem saem durante os trabalhos, com os quais contribuem na medida da sua habilidade e possibilidade. Semana passada estava at'e rolando um simp'osio internacional de restaro e gestao de s'itios hist'oricos, mas n'ao deu pra passar do cartaz informativo em algum lugar onde estive, s'o fiquei sabendo que o restaurador chefe de Havana Vieja 'e considerado A autoridade mundial no assunto. D'a pra ver e sentir andando pelas calles. 

 

Bom, o aviao da Mexicana chegou, vou tomar o ultimo morito antes da tequila. Besitos e xeritos. Duda

 



Escrito por manguetronic às 00h37
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ANIVERSÁRIOS...



Escrito por manguetronic às 21h26
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VISITA À PROVÍNCIA

É verdade que a França não exerce mais a esmagadora influência cultural de
outros tempos. Quando se trata do mundo acadêmico, no entanto, ainda parece
impossível escapar ao fascínio de nomes como Derrida, Delleuze, Foucault,
Bourdieu ou Baudrillard - todos já falecidos, mas responsáveis por uma obra
que permanece como referência para o pensamento contemporâneo. Na última sexta-
feira, um digno representante da tradição intelectual parisiense teve a
responsabilidade de encerrar o Congresso Internacional de Antropologia, que
ocupou, de terça a sexta-feira, o auditório do Hotel Park, em Boa Viagem. 
Trata-se do sociólogo Michel Maffesoli, professor do Centro de estudos sobre
o atual e o cotidiano (CEAQ) da Sorbonne.

O leitor brasileiro conhece Maffesoli através das traduções de títulos como
La part du diable précis de subversion postmoderne (A parte do diabo, Record,
2004) e Du nomadisme. Vagabondages initiaques (Sobre o nomadismo, Record,
2001). Suas digressões sobre fenômenos como as raves, a internet e o dualismo
entre o bem e o mal têm trânsito livre nas inúmeras subdivisões da academia
brasileira. Na sua passagem pelo Recife, ele tratou do tema
Imaginário do envolvimentarismo. 

Os quarenta anos do maio de 68 tiveram ampla repercussão na mídia
ocidental. Qual a importância desse ano mítico na sua vida e na sua obra?


Penso que uma perspectiva desta natureza deve compreender o que tem sido
chamado de manifestações de Maio de 68. Na verdade, elas representam a
verdadeira distinção entre modernidade e Pós-modernidade. As revoltas juvenis
dos anos 60 anunciaram a queda dos grandes valores modernos, da fé no futuro,
da visão política do mundo, do predomínio da razão, da prevalência do
trabalho... Com esses acontecimentos, o advento de um novo paradigma se
instaurou. Da minha parte, em tom jocoso, posso dizer que toda a minha obra
consiste em buscar as conseqüências da ruptura que se iniciou com esses
eventos.
 
O senhor coloca como uma das características da pós-modernidade a
desconfiança contra os políticos, os intelectuais e os jornalistas,
responsáveis em conjunto pela formação da opinião na modernidade. Esse poder
de formatar a opinião mudou de mãos? Ou deu lugar a uma espécie de anarquia
pós-moderna?

Eu tentei mostrar em vários de meus livros (e, em particular, um panfleto
publicado em 2008, A República de bons sentimentos), que a intelligentsia, os
políticos, intelectuais, e jornalistas pareciam totalmente em desacordo com o
que acontece na vida social. Existe um verdadeiro fosso entre a opinião
pública e a opinião publicada. Isso ocorre porque a intelligentsia manteve-se
principalmente sobre os padrões intelectuais que se desenvolveram a partir
séculos 18 e 19, o Iluminismo. Por conseguinte, é necessário ter cuidado com
o que está a surgir na base social. E, para pegar emprestado uma frase de
Marx, é preciso 'saber ouvir a grama crescer". Isto é, estar atento a todos
os pequenos pedaços da vida ordinária, ao imaginário social que constitui a
verdadeira cultura em gestação. Na verdade, podemos chamar-lhe uma anarquia
posmoderna. Recordando aquilo que é a verdadeira definição de anarquia, ou
seja, "uma ordem sem Estado". Da minha parte, vou tentar chamar a atenção
para a ordem interna que constitui a vida cotidiana. 
 
Bush e Bin Laden incorporam, cada um a seu modo, uma visão de mundo
centrada numa noção de bem único, fundamentalista. A possível eleição de
Obama tem potencial para romper com essa visão monoteísta em benefício de uma
pluralidade democrática de valores, preconizada por você em trabalhos como A
parte do Diabo?
 
Já disse que Bush e Bin Laden foram os dois protagonistas da mesma
ideologia, resultante do monoteísmo semita. Isto significa que, a partir de
uma concepção única do bem, um estigmatizou o outro. De qualquer jeito, eles
se empenharam em uma disputa doméstica. Não se, na verdade não creio, que
Obama possa representar uma ruptura. Ele se apóia muito na ideologia
americana ou, melhor dizendo, na idéia americana de um bem único. Isso se
traduz politicamente na pretensão de impor a democracia a todos os povos e
pelo bem de todos os povos. A mim, parece-me mais interessante observar o que
acontece nesta fértil América do Sul onde, a longo prazo, se pode planejar o
futuro da posmodernidade.
 
O jogo entre subversão e enquadramento característico da modernidade
parece acompanhar a trajetória das tribos urbanas nesse milênio pós-moderno.
É o que assistimos, hoje, por exemplo, com a cultura das raves, largamente
dominada por corporações e outros interesses comerciais. Existe um padrão de
repetição aí? Ou o jogo entre as margens e o mainstream ganha outras
complexidades na pós-modernidade?

É preciso fazer uma distinção entre a sociedade oficial, a das
instituições políticas, econômicas e sociais, da chamada “sociedade oficiosa”
(que na França é conhecida de sociedade noturna). Chamo atenção para a
diferença entre o social racional e a socialidade emocional. Obviamente, isso
é o que, para mim, representam as várias tribos urbanas que, ao lado da
economia e do trabalho, ao lado da vida das empresas, mantêm o foco na
dimensão lúdica da existência. As technoparades, as raves, o crescimento da
música gótica, o 'mangue beat'... Tudo isto faz com que exista um mainstream
da sociedade com ênfase em valores dionisíacos. Da minha parte, é assim que
eu entendo Pós-modernidade. 



Escrito por manguetronic às 21h51
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VITÓRIA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Escrito por manguetronic às 21h31
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VACA SAGRADA (2)

Bom, hoje j'a 'e quarta feira, dia 6, estivemos atravessando a Ilha de leste para oeste, pr'oximo ao litoral sul, depois cruzamos o pa'is para o norte e chegamos ontem a Matanzas, 100 km a leste de Havana. Passamos por Majagua, distrito de Cierro D"Avila, Trinidad, Cienfuegos, Jovellanos e ca estamos. Nossa busca nessa viagem at'e Havana se concentra em praticas religiosas distintas das que conhecemos na regiao de Santiago. Em Majagua foi a Fiesta de los Bandos, profana ; em Trinidad, lindo centro historico e uma praia caribenha magnif'ica com um hotel de pessimo gosto, chamada Ancon; em Cienfuegos, outra cidade com um centro historico e um boulevard espanhois lindos e muito bem conservados, ficamos alojados na casa de hospedes do CDR provincial e seus dirigentes nos apresentaram ao Arara, originario do Benin, porque tamb'em s'ao os l'ideres espirituais locais. Ali'as, aqui tive oportunidade de perguntar sobre as funcoes atuais dos Comites de Defesa da Revolucao e a primeira que me citaram foi a organizacao da limpeza das ruas. Isso mesmo, uma vez por mes, na terceira sexta-feira, o CDR da rua organiza os voluntarios para uma fachina geral no pedaco,  o que mais ou menos explica como um pais sem cestos de lixo tem cidades tao limpas.

 

A outra funcao 'e organizar e realizar campanhas como doacao de sangue; a vigilancia por rua, pois toda noite um cidadao voluntario fica acordado (sic) vigiando o pedaco; relacionar e fichar os visitantes temporarios, quer dizer, se um primo de outra cidade vem passar uns dias na tua casa, deve se dirigir ao CDR para se dar a conhecer. Em Jovellanos, a Santeria, nosso Candomble, em um pueblo bem pequeno, tivemos que nos espalhar pelos quartos de uma 'unica casa, s'o que um deles esta completamente ocupado por garrafas longneck de cerveja Bucanero. O que 'e isso gente, um deposito clandestino de cerveja? Bem, era um dep'osiito meio que clandestino, s'o que de molho de tomate, feito e vendido abertamente pelo casal a 3 pesos a garrafa. Mas isso pode? N'ao, n'ao pode, mas rola, inclusive porque a cozinha cubana usa molho de tomate em quase tudo, 'e a chamada salsa, ou cozimento com o molho. Ou seja, o cubano vai empurrando com jeito a econmia para uma abertura que o Raul reconheceu necessaria na sua assuncao ao cargo maior. Como vao fazer isso, nem eles parecem saber ainda. Mas a galera com criatividade ou alguma posse, como uma casa mais o menos vai se virando.

 

Em Cienfuegos, por exemplo, existem mais de 350 casas de alquiller, o que significa uns 400 quartos para estrangeiros. Aqui em Matanzas s'ao mais de 500, por conta da proximidade com Varadero. N'os estamos em um sobrado espanhol do s'eculo XIX, restaurado pelos proprietarios, com vigas e portas de cedro, vitrais, piso cer"amico, um terraco interno aberto 'as estrelas, que ao sol faz um calor dos infernos, p'e direito interno de uns 5 metros, vige, que beleza. E o quarto duplo custa 25 CUC por noite, com ar condicionado, frigobar, banheiro com 'agua quente e  fria, cesto de lixo com cara de cachorrinho....

 

Voltando 'a problematica, o transporte urbano parece ser o martirio maior dos/as cubanos/as que vivem nas cidades m'edias e grandes. Eu j'a falei dos caminh'oes adaptados que la em Santiago carregam gente como se carrega bicho pro matadouro, mas depois de atravesssar o pa'is d'a pra ver que o sofrimento e a espera 'e grande em todo canto. Tem um lado bonito/bucolico, porque as outras cidades pelas quais passamos, sem as ladeiras de Santiago, tem muitas, muitas mesmo, charretes e bicitaxis, e voces podem imaginar o que isso provoca na paisagem urbana.

 

Em Jovellanos, pueblito pequeno, acordamos ao amanhecer com o toc-toc dos cavalos puxando as charretes.  Mas quando se precisa ir pro trabalho ou voltar pra casa em distancias maiores, o drama das pessoas 'e grande. O transporte inter-municipal, ao contrario, parece bem resolvido por onibus modernos, chineses, que cruzam o pa'is com frequencia e rapidez. Subsiste o trem, mas o sistema foi sucateado por forca do petroleo sovietico barato ou pela ideologia automobil'istica, sei l'a. Ainda assim, s'o os desportistas ou artistas famosos, os medicos, sobretudo os que voltam de um tempo no exterior, tem permiss'ao para comprar um automovel novo. O cubano comum, so antigo. Moto tamb'em n'ao ha novas, so as da Europa oriental dos tempos sovieticos, quando muitos cubanos andavam por la em missoes militares. Por isso em Santiago todas as moto-taxis tem um dono que as aluga para a garotada por 100 pesos diarios e eles que tratem de transportar o povo pra livrar a grana do dia.

 

Matanzas 'e a porta de entrada da Santeria em C. A lingua 'e o Yoruba, os tambores de fundamento sao os mesmos, os santos tambem e a musica depois da celebracao 'e a rumba. Ontem estivemos na Casa mais tradicional da regiao, hoje vamos para Havana e no s'abado voltamos para uma festa religiosa que termina com rumba. Vai ser nossa despedida. At'e j'a gente, com besitos e xeritos.

 



Escrito por manguetronic às 14h18
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VACA SAGRADA (1)

*Mais uma crônica/e-mail enviada de Cuba por Eduardo Homem (TV Viva) durante as filmagens de um documentário sobre as relações entre a cultura da ilha e a de Pernambuco.

 

HOJE 'E quinta, 31, 21:30, nossa 'ultima noite em Santiago. Amanha sa'imos para La Habana, mas parando em Majagua, Cienfuegos, Matanzas e Pinar del Rio. Acabamos de chegar d'el Cobre, o distrito de Santiago onde Madelaine, o sacerdote do espiritismo cruzado, nos preparou uma despedida. Como quase sempre, bode, porco e ron, muito ron, come-se muito e bebe-se mais ainda. E falando em bode, na segunda, ao chegar de Baracoa, fomos surpreendidos pela Elizabeth, dona da casa onde nos hospedamos, com bife 'a milanesa no almoco, carne de boi, coisa rara na Ilha. Ali'as, fora os 5 meses em Mocambique logo depois da independ"encia, n'ao lembro de ter ficado tanto tempo sem comer carne de boi. Mas no meio do almoco Elizabeth nos diz para aproveitarmos e comer muito porque era carne ilegal e Abiguita comenta que est'avamos cometendo um crime pass'ivel de uma condenacao a quinze anos de prisao.

 

Eu achei graca, claro, disse que n'ao era poss'ivel, que n'ao acreditava, quando todos os/as cubanas presentes disseram mais: se voce for reincidente em matar um boi/vaca sem autorizacao ou vender a carne no mercado negro, pode pegar at'e 25 anos de cana. Malandro, o est"omago deu uma reviravolta porque o lance 'e s'erio, embora a carne ilegal exista no tal do mercado negro. E se diz assim, negro, porque negro em Cuba continua sendo uma designacao para ruin, mal, feio, embora a maioria da populacao seja negra.

 

Mas este 'e outro assunto e voltando ao mercado paralelo, nele se tem de quase tudo, porque de quase tudo se tem em Cuba, embora nas tiendas que vendem em CUC, ou pesos convertibles, cada qual valendo U$ 1,20 e que a maioria da populacao n'ao tem. Camarao 'e o mesmo, temos comido muito, do mar, mas comprado no paralelo porque 'e tempo de pesca proibida, como a lagosta maravilhosa de Ciboney.  Voltando 'as vacas, quando nasce um bezerro o dono tem at'e quinze dias para fazer o registro do bicho, mas se lhe nasce um filho ou filha, n'ao necessita registrar em tempo algum. A vaca 'e mais sagrada em Cuba do que na I'ndia, quem diria!!! E a explicacao 'e que como tem pouco gado bovino, sua carne 'e destinada para criancas do pr'e-escolar, enfermos com anemia e que tais, e etc. O problema parece estar no etc.

 

Na terca fomos a Thompson y Barranca, duas comunidades de trabalhadores assalariados da zona canavieira de Santiago, vizinha da maior divisao de tanques do Oriente da Ilha. Como no Brasil, 'e flagrante a diferenca entre os pequenos agricultores familiares que cultivam sua terra, dos assalariados. Aqui n'ao h'a desemprego temporario, todo mundo tem casa com energia, geladeira, tv, som, galinha, porco e bode no terreiro, escola, posto de sa'ude, mas ainda assim a diferenca 'e grande, porque os salarios dos trabalhadores da cana s'ao os menores do pais, n'ao ganham nem 300 pesos por mes. Conting"encias do mercado internacional de produtos prim'arios, realmente fica dif'icil remunerar melhor a m'ao de obra local se o acucar cubano compete com o brasileiro, cuja mao de obra 'e hiper explorada.

 

Disseram-me que agora estao investindo em acucar org"anico, que tem um preco muito mais alto no mercado internacional, inclusive porque, com a universalizacao da educacao, como a m'ao de obra para o trabalho bracal e brutal se reproduz?  N'ao 'e a toa que essas comunidades s'ao de origem haitiana. E na casa onde acabamos dormindo, porque a chuva torrencial nos impediu de voltar, uma das filhas 'e tecnica em inform'atica e a outra esta cursando medicina. No quarto onde dormi, desalojando as duas meninas da casa por conta da hospitalidade campesina internacional, havia um computador e na sala uma televis'ao com tela plana de 29" que pertencem 'a escola local, guardadas ali por conta das f'erias e como medida de seguranca (sic).  Noite estrelada do hemisf'erio norte, 82 litros de ron e 6 bodes animaram o ga-ga at'e umas horas, porque era ele a nossa intencao, ritmo e danca que nos disseram ser o mais parecido com o nosso maracatu rural. Nao acho, mas valeu. No final, a queima do diablo, uma fogueira em forma de cone, em cujas brasas pulam e dancam uns caras alucinados de entusiasmo e ron, claro.

 

Afinal, ontem conhecemos um poquito da cultura contempor"anea cubana de boa qualidade, grupos jovens de hip-hop, grafiteiros, rappers, como no Brasil, marginalizados, hostilizados, sem acesso a meios alguns, quem dir'a os de comunicacao. Filmamos um est'udio onde a galera grava seus trabalhos que fica no quarto de um deles, menos de 3 por 3, em meio 'a cama de casal, armario, uma precaridade cheia de energia boa e produtiva. Depois um concierto na calle, no bairro Portoondo, de origem jamaicana, com dois grupos de hip-hop muito bons, meninos que, como Chico Science e a rapaziada do Alto Z'e do Pinho, mesclam o son, o merengue, o reggae com o contempor"aneo, mais as suas preocupacoes socio-politico-culturais, e fazem uma musica e uma poesia de prima. Foi linda a interacao, inclusive porque um deles acaba de passar 5 meses no Brasil, BH, SP e RJ, e voltou encantado com a m'usica brasileira, imaginem, com Bezerra da Silva, com o repente nordestino e, claro, o hip-hop mais marginalizado da periferia.  Como ele disse, "periferia 'e periferia em qualquer lugar do mundo, sob qualquer regime".

 

Ele disse tamb'em que o movimento jovem mais rebelde nao quer derrubar o regime nem tem nos cubanos de Miami o seu ideal, mas sim chamar a atencao do poder na Ilha para suas preocupacoes e necessidades. O fato 'e que mesmo gentes como as que fazem a Casa del Caribe, antenadas na cultura, veem o hip-hop com preconceito, como se fosse uma moda importada e n'ao atenta para sua poesia e seu protesto, ficando cega para um movimento scial jovem e din"amico que pode ajudar muito na direcao das transformacoes que vao acontecer por aqui. Porque o poder 'e branco, careta, de meia idade, se diz comunista e/ou catolica, olha demais pro proprio umbigo cheia de certezas e essa juventude 'e negra, sensual, irreverente, com muitas interrogacoes e cre no panteao dos deuses africanos.

 



Escrito por manguetronic às 14h16
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