Blog Manguetronic


VISITA À PROVÍNCIA

É verdade que a França não exerce mais a esmagadora influência cultural de
outros tempos. Quando se trata do mundo acadêmico, no entanto, ainda parece
impossível escapar ao fascínio de nomes como Derrida, Delleuze, Foucault,
Bourdieu ou Baudrillard - todos já falecidos, mas responsáveis por uma obra
que permanece como referência para o pensamento contemporâneo. Na última sexta-
feira, um digno representante da tradição intelectual parisiense teve a
responsabilidade de encerrar o Congresso Internacional de Antropologia, que
ocupou, de terça a sexta-feira, o auditório do Hotel Park, em Boa Viagem. 
Trata-se do sociólogo Michel Maffesoli, professor do Centro de estudos sobre
o atual e o cotidiano (CEAQ) da Sorbonne.

O leitor brasileiro conhece Maffesoli através das traduções de títulos como
La part du diable précis de subversion postmoderne (A parte do diabo, Record,
2004) e Du nomadisme. Vagabondages initiaques (Sobre o nomadismo, Record,
2001). Suas digressões sobre fenômenos como as raves, a internet e o dualismo
entre o bem e o mal têm trânsito livre nas inúmeras subdivisões da academia
brasileira. Na sua passagem pelo Recife, ele tratou do tema
Imaginário do envolvimentarismo. 

Os quarenta anos do maio de 68 tiveram ampla repercussão na mídia
ocidental. Qual a importância desse ano mítico na sua vida e na sua obra?


Penso que uma perspectiva desta natureza deve compreender o que tem sido
chamado de manifestações de Maio de 68. Na verdade, elas representam a
verdadeira distinção entre modernidade e Pós-modernidade. As revoltas juvenis
dos anos 60 anunciaram a queda dos grandes valores modernos, da fé no futuro,
da visão política do mundo, do predomínio da razão, da prevalência do
trabalho... Com esses acontecimentos, o advento de um novo paradigma se
instaurou. Da minha parte, em tom jocoso, posso dizer que toda a minha obra
consiste em buscar as conseqüências da ruptura que se iniciou com esses
eventos.
 
O senhor coloca como uma das características da pós-modernidade a
desconfiança contra os políticos, os intelectuais e os jornalistas,
responsáveis em conjunto pela formação da opinião na modernidade. Esse poder
de formatar a opinião mudou de mãos? Ou deu lugar a uma espécie de anarquia
pós-moderna?

Eu tentei mostrar em vários de meus livros (e, em particular, um panfleto
publicado em 2008, A República de bons sentimentos), que a intelligentsia, os
políticos, intelectuais, e jornalistas pareciam totalmente em desacordo com o
que acontece na vida social. Existe um verdadeiro fosso entre a opinião
pública e a opinião publicada. Isso ocorre porque a intelligentsia manteve-se
principalmente sobre os padrões intelectuais que se desenvolveram a partir
séculos 18 e 19, o Iluminismo. Por conseguinte, é necessário ter cuidado com
o que está a surgir na base social. E, para pegar emprestado uma frase de
Marx, é preciso 'saber ouvir a grama crescer". Isto é, estar atento a todos
os pequenos pedaços da vida ordinária, ao imaginário social que constitui a
verdadeira cultura em gestação. Na verdade, podemos chamar-lhe uma anarquia
posmoderna. Recordando aquilo que é a verdadeira definição de anarquia, ou
seja, "uma ordem sem Estado". Da minha parte, vou tentar chamar a atenção
para a ordem interna que constitui a vida cotidiana. 
 
Bush e Bin Laden incorporam, cada um a seu modo, uma visão de mundo
centrada numa noção de bem único, fundamentalista. A possível eleição de
Obama tem potencial para romper com essa visão monoteísta em benefício de uma
pluralidade democrática de valores, preconizada por você em trabalhos como A
parte do Diabo?
 
Já disse que Bush e Bin Laden foram os dois protagonistas da mesma
ideologia, resultante do monoteísmo semita. Isto significa que, a partir de
uma concepção única do bem, um estigmatizou o outro. De qualquer jeito, eles
se empenharam em uma disputa doméstica. Não se, na verdade não creio, que
Obama possa representar uma ruptura. Ele se apóia muito na ideologia
americana ou, melhor dizendo, na idéia americana de um bem único. Isso se
traduz politicamente na pretensão de impor a democracia a todos os povos e
pelo bem de todos os povos. A mim, parece-me mais interessante observar o que
acontece nesta fértil América do Sul onde, a longo prazo, se pode planejar o
futuro da posmodernidade.
 
O jogo entre subversão e enquadramento característico da modernidade
parece acompanhar a trajetória das tribos urbanas nesse milênio pós-moderno.
É o que assistimos, hoje, por exemplo, com a cultura das raves, largamente
dominada por corporações e outros interesses comerciais. Existe um padrão de
repetição aí? Ou o jogo entre as margens e o mainstream ganha outras
complexidades na pós-modernidade?

É preciso fazer uma distinção entre a sociedade oficial, a das
instituições políticas, econômicas e sociais, da chamada “sociedade oficiosa”
(que na França é conhecida de sociedade noturna). Chamo atenção para a
diferença entre o social racional e a socialidade emocional. Obviamente, isso
é o que, para mim, representam as várias tribos urbanas que, ao lado da
economia e do trabalho, ao lado da vida das empresas, mantêm o foco na
dimensão lúdica da existência. As technoparades, as raves, o crescimento da
música gótica, o 'mangue beat'... Tudo isto faz com que exista um mainstream
da sociedade com ênfase em valores dionisíacos. Da minha parte, é assim que
eu entendo Pós-modernidade. 



Escrito por manguetronic às 21h51
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VITÓRIA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Escrito por manguetronic às 21h31
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